domingo, novembro 07, 2004

Hilária

Gosto muito desta crônica. A história é impagável.

O ÔNIBUS

"Vou logo dizendo que esta história não se passou comigo pois bem sei que os asseclas da oposição irão me creditar este feito sem pestanejar.
Sou míope, admito. “Tonta, desocupada e míope”, mas repito: o único papel que me cabe nesta narrativa é o de narrar. Narremos, portanto.
Certa grande amiga minha tem uma irmã. Míope. Quão míope eu não saberia dizer, imagino que não muito pela espessura da lente de seus óculos. Mas arrisco dizer que, em casos como este, certas propensões espirituais contam tanto quanto, ou até mais, que as debilidades físicas.
Pois a irmã da minha amiga estava no ponto esperando o seu ônibus. De noite. Devo esclarecer para os menos entendidos que para nós, os de pouca visão, essa é das mais árduas tarefas existentes. O ônibus vem se aproximando e o letreiro lá, todo embaçado. O míope semi-cerra os olhos, Ilegível. O esforço se redobra. Formas vagas começam a se delinear. O psicológico já está suando, tudo em poucos segundos. O míope dá um passo e desce do meio-fio (como se fosse adiantar). O ônibus se aproxima cada vez mais. O míope finalmente identifica o destino do ônibus. É o que ele esperava. Dá o sinal. O ônibus já passou. Periclitante. Com o tempo, passamos a nos utilizar de outros recursos como o aspecto gráfico, por exemplo. Cores e formatos de esboços costumam dar indícios do que possa vir a ser o que não se pode ver. Acredito que esta não fosse uma prática comumente usada pela nossa heroína, visto sua “atitude”. Decerto, ela deve (ou pelo menos devia) ser adepta da tática do “vinde a mim as criancinhas”. Esta prática, muito simples mas deveras repudiada pelos nossos caros condutores, consiste em dar sinal para todo e qualquer ônibus que assome no horizonte da falta de nitidez.
Uma hora se acerta.
Outra hora não.
Pois lá estava a irmã da minha amiga no ponto quando surge o grande veículo iluminado. Ela tenta ler o letreiro que lhe parece praticamente invisível apesar de todos os esforços de visão. Quer chegar logo em casa, é sábado de carnaval, dane-se, o ponto está cheio, se o ônibus não servir pra ela, pra outro há de servir. Num impulso agônico dá o sinal de parada. O carro se aproxima e, conforme isso ocorre, delineia-se diante de seus olhos duas graves constatações: não, o ônibus não ia para a sua casa mas se encaminhava para o mais próximo depósito de dejetos residuais. E não, o ônibus não era um ônibus mas sim um caminhão de lixo.
Agora, pensem no ultraje interior de dar sinal para um caminhão de lixo. Pensem. No sentimento da derradeira decadência . E as outras pessoas todas no ponto, assistindo à patética ação de seu ser. Você, caro leitor, se imagine no lugar de nossa amiga, tentando disfarçar, fazendo que passava as mãos no cabelo, fazia alongamento...
Mas deixemos um pouco de lado a degradação pessoal da pobre e analisemos a situação por um outro prisma. Meu amado costuma dizer , mui sabiamente, que toda coisa ruim que acontece para uma pessoa, proporciona uma coisa boa para outras. Por exemplo, a pessoa morre. Mas abre várias vagas no mercado de trabalho: na ocupação de seu antigo posto, para o marceneiro que faz caixão, para o coveiro, para a florista (se for um morto mais ou menos querido), para o vendedor de lotes em cemitérios arborizados e pacíficos, enfim.
Pois então, partindo deste pressuposto, podemos dizer que, neste dia, a irmã da minha grande amiga se sagrou a ALEGRIA DOS LIXEIROS. Devemos voltar os nossos olhos para este tão marginalizado profissional, que leva tão dura vida em sua labuta diária. Agora, pensemos na diversão, na espontaneidade e pertinência dos comentários, ah, o riso solto. Vejam como um singelo gesto, um simples levantar de braço trouxe a felicidade a tantas pessoas: lixeiros, passageiros, transeuntes...
E o que são o constrangimento e a quase total degeneração moral diante da possibilidade de tornar o seu próximo um ser mais feliz? Me digam?
Esqueçamos as chacotas. Esqueçamos as injúrias, as pilhérias, as galhofas.
Pensemos nos outros. Sejamos ridículos."

(O Sindicato dos Poetas - A. Muroni)

3 comentários:

Mapie disse...

eu ADORO essa história, você sabe.

Anônimo disse...

Sempre a irmã de uma amiga, o vizinho da prima da cunhada da minha avó... Fala sério, Andréa Muroni!! A tua sorte é que viaja diaraiamente de trem. Ou nada me convenceria que esta históira não se passou contigo.

Anônimo disse...

Em tempo: eu sempre esqueço de assinar isso aqui!!
Júlio Castro